Mais que um Professor, um Ser Humano (Por Thales Marcolino)

Cheguei ao colégio no primeiro dia de aula. Meu material escolar era azul – como de todos os outros garotos inscritos – e o das garotas, rosa. Foi aí que eu tive, não só minha primeira aula, como meu primeiro questionamento: “Por que estamos padronizados e divididos?”
Eu não me importava em usar azul, verde ou qualquer outra cor que me faziam engolir goela abaixo. Porém, já via que era diferente e gostava nenhum pouco disso.
Durante o período escolar, dividia-me entre Peter Pan e goleiro nas aulas de Educação Física. Eu tinha nenhuma habilidade para esportes, até então, e ficar no gol levando “bicas” era o máximo que eu podia fazer para interagir com os outros garotos da minha sala. Aula vai, aula vem, até que uma garota negra, sentindo-se excluída também, convidou-me para jogar vôlei. Cara, formamos uma dupla imbatível e, quando permitiam-me estar entre as meninas, vencíamos todos os sets.
A cada ano, eu me descobria mais diferente e surgiam mais questionamentos sobre sexualidade e padrões: eu os odiava, eu me odiava!
Odiava, também, ter de ir à missa e ouvir que eu era uma “aberração odiada por Deus”. Mas, durante este período, ir à missa e servir à Igreja era o único jeito de ser socializado e “aceito”, afinal, eu era tão delicado e educado como todos os padres da época. Pensei: “Vou ser padre e, junto dos outros, vou ter companhia… Meu, eu tinha de escolher o meu futuro e, na década de 90, era ser padre ou sumir no mundo para viver uma vida de mentiras.
Contudo, escolhi quebrar a regra e, entre xingamentos como “veado” e “bixa”, decidi ser professor e tentar amenizar situações – similares a minha – que meus futuros alunos também enfrentariam. Terminei o Ensino Médio e já tinha muitos amigos, porém, a minha orientação sexual sempre era posta à prova e eu tinha de sobreviver com mentiras, isolamento e outras coisas terríveis que sou incapaz de descrevê-las.

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Em 2005, ingressei na faculdade e optei por Letras porque amava ler e tinha uma facilidade com a Língua Inglesa. Foram 3 anos que eu conheci mais sobre mim e sobre aceitação e – ainda que “dentro do armário”, consegui minha graduação… O meu diploma!
-Mas… E agora?
-Agora é a hora de você, Thales, enfrentar a sala de aula, certo?
– Certo!
Não vou negar que me deu um frio na barriga quando me pediram para explicar “Oração Subordinada Relativa Restritiva”, mas assim que eu terminei, este frio na barriga continuou e não era por me esquecer algo que aprendi na faculdade: meu frio na barriga tinha outro nome, e este nome era preconceito.
Eu o senti até alguns anos atrás, embora a única coisa que me aconteceu sobre minha sexualidade foi, em 2010, uma pergunta de um aluno: “Professor, posso te fazer uma pergunta pessoal?”. Eu, ligeiramente respondi: “Se esta pergunta for para desconstruir preconceitos e, além disso, te acrescentar algo na na vida, sim… Claro!”. Mas, ele desistiu e continuei com o “verbo To Be”.
Mas, não fui cego quando era o Professor Thales nos corredores, nas salas de aula e nas salas dos professores. Sempre ouvia piadinhas machistas, sexistas e preconceituosas, porém, rebatia com algum argumento sobre tolerância e diversidade e olha: argumentos científicos para calar de vez os hipócritas de plantão.
Foi e é um caminho duro… Um pisar em ovos, mas não posso dizer que não houve momentos onde eu respirei fundo e disse: “Você escolheu a profissão certa, Thales!”
No final de 2015, recebi uma mensagem instantânea com os dizeres: “Teacher, hoje foi a apresentação do meu TCC e agora sou um Professor de História e, sem dúvida alguma, você é o responsável por isso. Desde que lecionou inglês para mim no Ensino Fundamental, eu comecei a entender que era possível eu ter uma profissão. O senhor sabe, né… Sou gay, negro e moro na periferia da cidade. Tinha perspectiva de nada além de me prostituir ou vender substâncias ilícitas, porém, quando vi o senhor, sendo gay e professor, percebi que eu também poderia sê-lo. Obrigado por ter entrado em minha vida e naquela sala de aula com 35 alunos diferentes. Deus te abençoe!”
Ora, abençoado fui e continuo sendo para partilhar, não só conteúdos, mas experiências de vida e de mundo… Aliás, mundo, você precisa ser “desconstruidão e meter o louco nas intolerância tudo!”

Autor: Thales Marcolino.

Editado por: Leonardo Theodoro Junior.

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